sábado, 10 de janeiro de 2015

[OPINIÃO] Fisioterapia na Atenção Primária: Uma Justificativa Plausível

    Ser um profissional de atenção primária parece comum para muitos acadêmicos e profissionais da Medicina, Enfermagem e Odontologia, tendo em vista a consolidada presença dessas profissões neste nível de atenção. Quando falamos para fisioterapeutas ou acadêmicos o processo é mais complicado, pois nós insistimos em replicar práticas da nossa experiência ambulatorial ou hospitalar em serviços de atenção primária. Compreensível por nossa historicidade. Todavia, precisamos ir mais a fundo se queremos ganhar espaço até mesmo mercado de trabalho. 
    Então, o que alicerça a Fisioterapia como profissão de assistência primária?
   Responder esta pegunta não é fácil. Precisamos recorrer à Epidemiologia e também as evidências científicas atuais. 
   Primeiramente, a Epidemiologia, como ciência, fornece informações contundentes em relação ao adoecimento das pessoas. Hoje em dia temos um perfil de doenças que causam mais morbidade do que mortalidade, ou seja, as doenças matam menos que há décadas. Isto ocorre porque existe um grande aporte sanitário que permite uma maior sobrevivência das pessoas, além do controle ou erradicação de doenças infecciosas que, em sua maioria são bem letais. Portanto, as pessoas hoje morrem menos e se tornam mais incapacitadas devido a presença maciça de morbidades crônicas. Assim, podemos destacar, com dados da Organização Mundial de Saúde, que as principais causas de mortalidade e incapacidade na população são:

Mortalidade:                                                                      
1º - Doenças cardiovasculares e cerebrovasculares.
2º - Neoplasias.
3º - Causas externas.
4º - Doenças do Aparelho respiratório.
5º - Doenças infecciosas e parasitárias.  

Incapacidade:
1º- Doenças cardiovasculares e cerebrovasculares.
2º- Disfunções musculoesqueléticas.
3º- Causas externas
4º- Doenças do Aparelho Respiratório.
5º- Neoplasias.
    
   Como revelado acima, observamos que o principal problema de saúde das pessoas atualmente são as condições crônicas que as incapacitam. Consequentemente, este problema precisa ser o foco dos serviços de atenção primária. Como mais exemplos epidemiológicos, entre as doenças mais incapacitantes, segundo publicação recente na Revista Lancet com dados mundiais, nos países envelhecidos ou envelhecimento destaca-se:
Brasil (América do Sul)
1º - Doenças isquêmicas do coração.
2º - Lombalgia.
3º - Doença cerebrovasculares.
4º - Distúrbios depressivos.
5º - Acidentes de Transito.

Canadá e EUA
1º - Doenças isquêmicas do coração.
2º - Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
3º - Lombalgia.
4º - Câncer do aparelho digestivo.
5º - Distúrbios depressivos.

Europa Ocidental
1º - Lombalgia.
2º - Doenças isquêmicas do coração.
3º - Doenças cerebrovasculares.
4º - Distúrbios depressivos.
5º - Câncer do aparelho digestivo.

   Podemos inferir a partir dessas informações que entre os cinco principais agravos incapacitantes, a Fisioterapia atua como profissão de contato direto na prevenção e recuperação de praticamente todas elas.
   Do ponto de vista das evidências científicas, a Fisioterapia apresenta excelente lastro concernente à prevenção de doenças cardiovasculares através da prescrição de terapias físicas e comportamentais; para as lombalgias, existe considerável respaldo para a prescrições de terapias físicas como a estabilização segmentar e manipulações articulares, assim como abordagens de mudança de comportamento como padrão-ouro no manejo da cronicidade e sua prevenção. O mesmo pode ser extrapolado para os casos de Acidente vascular Encefálico, DPOC e outros que historicamente estão relacionados com a Fisioterapia. Não precisamos dissertar sobre os efeitos relacionados à recuperação, pois este dispensa apresentação. Além disso, as prescrições fisioterapêuticas tem uma característica muito forte para a atenção primária que é sua capacidade de autogerenciamento e cuidado apoiado por longo prazo.
  Acrescento também a existência de algumas experiencias internacionais onde o fisioterapeuta se coloca como profissional de primeiro contato. Para quem não sabe o que isto, profissional de primeiro contato é aquele que examina, prescreve ou referencia o paciente no momento em que ele adentra o serviço. Podemos citar exemplo do sistema Kaiser Permanente no Estados Unidos e no sistema de saúde dos veteranos de guerra norteamericano.
 Resumindo, as pessoas estão sendo mais acometidas por doenças crônicas incapacitantes. A Fisioterapia tem como função primordial e sem precedentes evitar e recuperar incapacidades, Políticas, serviços e profissionais de atenção primária tem como objetivo maior assistir a população quanto aos problemas de saúde mais frequentes. Logo, por método dedutivo, chega-se a uma conclusão não-falaciosa que profissionais fisioterapeutas são necessário obrigatoriamente em serviços de atenção primária à saúde a fim de produzir uma assistência de qualidade e resolutiva.
Contudo, esta evidência ainda não quer dizer que estamos prontos para assumir esta responsabilidade.  A formação técnico-científica para atuar neste nível de complexidade assistencial ainda é insipiente, sendo um dos tentos deste blog discutir a atuação profissional mais adequada.

Um comentário:

  1. Johnnatas, parabéns pelo blog. Sendo este, um espaço que nos permite discorrer sobre a atuação fisioterapêutica na atenção básica de saúde. Particularmente, tenho um profundo interesse na mesma. Excelente escrita e desenvolvimento textual, percebe-se beleza e muita organização de ideias no mesmo. Aguardo novas publicações.
    Abraço!

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