sexta-feira, 16 de março de 2018

FISIOTERAPIA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA: DIFICULDADES DA FORMAÇÃO II

Olá!
     Como prometido, continuarei a postagem anterior sobre as dificuldades da formação em Fisioterapia para o trabalho na atenção primária (APS). Nesta postagem irei falar sobre outra dimensão do constructo (algo que não podemos medir diretamente) dificuldade do ensino em Fisioterapia na APS, que é a formação.  
       Formar fisioterapeutas com as competências ideais para APS não é uma tarefa fácil. A primeira barreira que enfrentamos é o  paradigma reabilitador da profissão. Muitos estudantes escolhem fazer o curso por conta dos resultados midiáticos ou por experiência individuais de programas de recuperação. Assim, inserir conceitos de prevenção de doenças e promoção da saúde como campo de atuação do fisioterapeuta além de trabalhar as habilidades para este fim encontra restrições, principalmente porque estas ações necessitam de mais tempo para demonstrar efeito. 
      Uma segunda barreira muito importante é a escassez de material literário científico que trabalhe as competências neste nível de atenção. As referências para leitura são fundamentais para orientar a aprendizagem e servir como subsídio para o aluno complementar seu processo de aprendizagem, além de produzir insight sobre os temas de aprendizagem. Isto pode ser reflexo do recente e baixo envolvimento de fisioterapeutas neste ramo, somado com a restrição de inserção no mercado. O uso de evidências de outros contextos pode ser uma saída interessante, por exemplo, a aplicação dase evidência de exercícios de impacto no aumento da densidade mineral óssea em mulheres menopausadas como medidas de prevenção em programas de rastreamentos de osteoporose.  
        Outra barreira são as competências que dever ser desenvolvidas para se trabalhar na APS. Talvez a principal barreira. Gosto de destacar as seguintes habilidades a serem desenvolvidas: contato inicial e triagem, abordagens de prevenção em subgrupos em risco, abordagens de promoção de saúde e abordagens de saúde pública. Saber acolher humanisticamente não é uma habilidade apenas do trabalho em APS, mas realizar uma triagem que envolve o exame dos sistemas corporais e também contextuais do indivíduo é necessário neste nível de atenção para o cuidado individual e familiar. Soma-se a capacidade de identificar pessoas e subpopulações com comportamento de risco para doenças específicas, principalmente crônicas ou estratificá-las em severidade, é papel de grande relevância pois todas as doenças crônicas levam a limitações e restrições permanentes ou de longa duração. Há também a atuação em desenvolver ações de melhoria do bem-estar dos indivíduos e coletividades com ou sem doenças diagnosticadas com ações não-específicas e que atingem os principais comportamentos nocivos à saúde. Além disso, é preciso habilidades em Epidemiologia com intuito de produzir diagnóstico de território, planejamento e avaliação de programas e ações de saúde que compõem a base da saúde pública ou coletiva.




      Uma barreira comum é a organização logística do currículo dos cursos que dão respaldo a formação na APS. Uma delas é a duração das vivências práticas na comunidade, que exigem um contato de longa duração para a conquista da maior característica da APS que é o vínculo com os usuários dos serviços, algo não conquistado com facilidade. A possível solução é uma maior integração entre ensino-serviço com o uso de atividades não curriculares como extensões universitárias, as práticas dos componentes curriculares ocorrerem na mesma comunidade por vários semestres ou parceria instituição-prefeitura para gerenciar um serviço modelo com enfoque na assistência e na formação. Contatos pontuais e de pouca duração não criam oportunidades para desenvolver as competências necessárias. Por isso sempre fica com um gostinho de "faltou isso" na formação ou a reprodução das práticas pontuais do nível secundário e terciário.     
        Por fim, a última barreira que identifico é a capacidade docente. Pelo que já vivenciei, existe uma dicotomia extremista que impede a formação adequada para o trabalho na APS. Por vezes, o docente tenta reproduzir o paradigma e as práticas dos serviços ambulatoriais e centros de reabilitação, tornando o cenário de aprendizagem um "mini-ambulatório reabilitador", onde não se faz "mais" pelas limitações tecnológica dura da APS ou os resultados são apenas parâmetros físicos de indivíduos já incapacitados. O outro extremo é uso de uma abordagem distorcida da humanização e do empoderamento, com foco somente na Educação em Saúde, cujo uso é muitas vezes equivocado pela ênfase na transmissão da informação como nas palestras de sala de espera. É preciso ter em mente que a educação torna-se uma ferramenta útil no manejo de condições de saúde quando aliada aos outros recursos terapêuticos como as terapias físicas, químicas e comportamentais.  
E você, concorda? O que poderia melhorar a formação do fisioterapeuta na APS?               
  

Nenhum comentário:

Postar um comentário