domingo, 4 de março de 2018

FISIOTERAPIA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA: DIFICULDADES PARA FORMAÇÃO

     A formação profissional em atenção primária à saúde (APS) no Brasil consiste num foco alicerçante, pois o nosso sistema de saúde iniciou uma reorientação do processo de cuidado, ainda na década de 90, com base em serviços comunitários e vertente na promoção da saúde, na prevenção de doenças e na manutenção e recuperação da saúde. Todavia, até o momento, temos dificuldades na construção de habilidade e competências para o trabalho neste nível de atenção. 
      No concernente a formação em Fisioterapia, provavelmente temos mais dificuldades do que as outras profissões de saúde de primeiro contato.  Nesta postagem farei exposição de algumas delas, muitas baseadas  em minha experiência docente e de pesquisa. Isso não significa que são as únicas e nem que são pontos de vista completamente corretos. 
      Acho que podemos dividir os fatores que dificultam o interesse do graduando em Fisioterapia na atuação no  nível da APS em domínio mercadológicos e de formação. Quando me refiro aos aspectos mercadológicos, remeto às oportunidades de trabalho que hoje dentro dos estabelecimentos do Sistema Único de Saúde (SUS) são a Estratégia Saúde da Família (eSF) e o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF). 
A. Grupo de acompanhamento para prevenção de osteoporose, AVC, hipertensão arterial com abordagem de terapia física.
B. Educação ambiental com escolares.

Rastreamento do risco de progressão da escoliose em escolares. 



      No caso da eSF, não fazemos parte integrante da equipe mínima e assim não conseguimos ter a mesma capilaridade na população que esta estratégia tem e desenvolver nossas competências, pois depende-se da sensibilidade e arrojo do gestor municipal em visualizar um quadro hegemônico de condições crônicas de saúde e entender que tais condições levam sempre à declínio da funcionalidade individual e coletiva, e que também podem ser prevenidas através de abordagens físicas e comportamentais. É nessas ações que o sistema de saúde reduz o impacto econômico das doenças crônicas.
       Quanto ao NASF, constituímos  o corpo profissional da equipe, mas estes existem em menor quantidade nos municípios, pois sua função principal é o apoio às equipes da eSF e muitos municípios não possuem este programa devido à limitações dos critérios para sua existência. Um fator interessantes a se acrescentar, é comum identificar a assistência fisioterapêutica no NASF concentrada nas ações de reabilitação devido à deficiência do sistema local de nível secundário como ambulatório e centros de reabilitação. É compreensível este desvio de função em virtude da imensa carga de indivíduos com limitações funcionais e restrições incapacitantes.
         Além disso, soma-se a baixa valorização salarial e escassos planos de carreiras para desempenho e qualificação nos sistemas locais de saúde. Observamos grande rotatividade dos profissionais das equipes de eSF e NASF, principalmente em pequenas cidades onde é praticamente inexistente a realização concurso que possibilitem a estabilidade profissional.  
       Acredito que esses entraves no serviço público somente são resolvidos através de um controle social muito forte, como em situações institucionalizadas nos conselhos e conferências de saúde e na escolha dos representantes do legislativo e executivo nos três níveis de gestão. Ou no controle social não institucional realizado pelo cidadão e representado nas situações do cotidiano como exigir pontualidade e assiduidade dos profissionais de saúde, fiscalizar a atuação dos gestores da saúdee os gastos públicos, discutir com amigos e comunidade estratégias de solução de problemas e outros. Sei que este tipo de comportamento não é fácil de adotar, precisa-se de muita obstinação. 
       É preciso ressaltar também algo que muitos esquecem sobre o trabalho na APS. Apesar do grande foco que o sistema público tenta imprimir as suas estratégias, o setor privado de saúde, também pode ser cenário para cuidados primários de prevenção de doenças e da promoção de saúde. Todavia, isto não é hábito não somente do fisioterapeuta. 
      Fisioterapeutas em seus consultórios, clínicas e no atendimento domiciliar podem desenvolver ações preventivas da mesma forma que aqueles que trabalham na eSF e NASF, sendo o alvo muito mais individual que coletivo, o que não retira o mérito ou a importâncias das ações. Por exemplo, fisioterapeutas que assistem gestantes podem estimar o risco de diabetes gestacional e elaborar um programa de terapia física e de mudança de comportamento para redução do risco; fisioterapeutas atuantes no cuidado de idosos podem estratificar a gravidade de alguma doença crônica e produzir um acompanhamento longitudinal baseado em supervisão e autocuidado; fisioterapeutas esportivos, além de reabilitar, podem identificar atletas que apresentam indicadores biomecânicos ou comportamentais para lesões do gestual esportivo e assim propor meios de se evitar a lesão ou sua recorrência. Incrementa-se também a possibilidade de colaborar para a mudança de hábitos prejudiciais como sedentarismo, tabagismo, qualidade do sono e hábitos alimentares como estratégias de promoção da saúde.  
      A prática de atenção primária não se limita aos serviços e estabelecimentos do SUS, apesar deste enfoque ser o mais importante por atuar, não apenas no indivíduo, como nos determinantes de saúde contextuais na ocorrência de eventos de saúde como ambientes coletivos saudáveis, vigilância em saúde e legislação de políticas saudáveis, por exemplo. Há países com sistemas de saúde universais onde a atenção primária não é de base comunitário e territorializado como o nosso, mas sim focalizado nas procura espontânea como Canadá e Inglaterra. 
       Em outra postagem trarei as barreiras e possíveis soluções na dimensão da formação.            

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